Júnia Leticia
A preocupação com o destino dado aos resíduos eletroeletrônicos no Brasil tem preocupado os ambientalistas, que alertam sobre o perigo causado por eles ao meio ambiente. Com a crescente facilidade para comprar computadores e com a implementação de programas federais de inclusão digital, a conscientização da sociedade civil acerca do problema é fundamental.
Assim como ocorre em países desenvolvidos, os ciclos de substituição de produtos estão cada vez mais acelerados. De acordo com estimativa da consultoria IT Data, os computadores são substituídos a cada quatro anos nas empresas e a cada cinco anos pelos usuários domésticos.
A alternativa mais rápida para eliminar esses produtos, a incineração, não é sustentável. Além de liberar na atmosfera diversos gases, como os altamente tóxicos e cancerígenos PAH (hidrocarbonetos policíclicos aromáticos), a prática acarreta problemas relacionados ao combustível gasto para a realização da queima.
As pressões de grupos de defesa do consumidor e de organizações ambientais vêm surtindo efeitos positivos na eliminação dos componentes tóxicos dos eletrônicos e na responsabilização dos fabricantes pela destinação do lixo eletrônico. O Greenpeace, por exemplo, elabora uma lista periódica apontando a posição dos fabricantes no ranking verde.
No Brasil, o projeto de lei em tramitação que aborda o assunto é a Política Nacional de Resíduos Sólidos. Consolidado em abril desse ano, em seu artigo 33, o projeto define a atribuição de responsabilidade de coleta, reciclagem e deposição adequadas dos resíduos eletroeletrônicos aos respectivos produtores, importadores, distribuidores e comerciantes.
Apesar de a prática ser diferente da teoria, é possível encontrar exemplos de empresas conscientes de sua responsabilidade ambiental. Uma delas é a AIX Sistemas, especializada no desenvolvimento de softwares para instituições de ensino. A empresa doou 13 computadores, dois monitores e outros materiais, como fonte e memória, para o Centro de Recondicionamento de Computadores (CRC) BH Digital, oficina adaptada para o processo de recepção de equipamentos usados.
O CRC BH Digital faz parte da rede nacional do Projeto Computadores para Inclusão – CI do governo federal. O projeto possibilita o reaproveitamento de equipamentos usados, que são recondicionados por jovens em formação profissionalizante. O seu objetivo principal é possibilitar à população que não tem acesso a um computador adquirir um equipamento de qualidade.
A política de atuação do Projeto CI vai de encontro ao foco da AIX Sistemas, que é contribuir para a melhoria da educação brasileira. Segundo o gerente de marketing e coordenador da Comissão de Responsabilidade Social da empresa, Reginaldo Rosa, há dois anos a empresa já tem o hábito de recuperar suas próprias máquinas e doá-las para entidades carentes.
Mesmo com a iniciativa, a empresa encontrava dificuldades para realizar o serviço. “Era um trabalho legal, mas tinha uma deficiência: encontrar uma pessoa com disponibilidade para melhorar a configuração da máquina. Também tínhamos a preocupação de doar um equipamento que seria útil, com uma configuração adequada”, conta Reginaldo Rosa.
A solução encontrada pela Comissão de Responsabilidade Social da AIX foi possibilitada pelo programa federal. “Lá eles têm técnicos que são remunerados para executar o trabalho e tornar o sistema utilizável. Caso contrário, descartam de uma forma que atenda às questões ambientais”, comemora o gerente de marketing da AIX.
Reginaldo Rosa acrescenta que, nos dias atuais, não dá para uma organização olhar apenas para si e para o mercado em que atua. “Os problemas sociais brasileiros estão aí e cada empresa tem que colaborar como pode. Aqui na AIX criamos uma comissão de responsabilidade social e, por meio de parcerias com ONGs, empresas e Governo, estamos fazendo a nossa parte”, comemora.
Ele acrescentou que a parceria é motivo de satisfação para a AIX. “Percebemos a seriedade do trabalho. Jovens que poderiam estar nas ruas, estão aprendendo uma profissão, se familiarizando com a informática.” Essa experiência pode ser comprovada pelo digitador Vanderlei Felix de Souza, de 22 anos. Ex-aluno do curso Jovens Protagonistas para o Mundo do Trabalho, ele foi contratado pelo CRC após fazer o curso.
Um dos motivos que levou Vanderlei de Souza a participar foi a abordagem dada durante a formação. “Foi muito mais do que um curso. Nos deu base para uma entrevista para emprego e gerir pessoas”. Segundo ele, o projeto possibilita um crescimento muito grande. “É um projeto muito bom e 50% dos jovens que fizeram o curso, já estão empregados”, diz.
A responsabilidade social empresarial, que inclui as questões com o meio ambiente, também é uma preocupação constante da Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação de Minas Gerais (Assespro-MG). Difundir a utilização e o descarte consciente das novas tecnologias faz parte da política adotada pela entidade, que possui 170 associadas, entre elas, a AIX Sistemas.
Segundo pesquisa anual da Fundação Getúlio Vargas sobre o Mercado Brasileiro de Informática e seu Uso nas Empresas, o Brasil possui hoje um computador para cada três habitantes, ou 60 milhões de unidades em uso. Essa densidade é maior que a média mundial, de um PC para cada quatro pessoas. Ciente de sua responsabilidade diante do problema, a Assespro-MG já planeja desenvolver uma campanha. “Vamos incentivar as associadas a se conscientizarem sobre sua responsabilidade com o meio ambiente e a sustentabilidade do planeta”, ressaltou o presidente da entidade, Ian Campos Martins.
Doações e beneficiados – A gerente do CRC BH Digital, Vera Primola, conta que podem solicitar equipamentos de informática recondicionados iniciativas que visam a inclusão digital, tais como telecentros comunitários, escolas públicas e bibliotecas. “É importante lembrar que para serem atendidos, os solicitantes devem garantir, por conta própria ou por outras fontes de recursos, espaço para a instalação dos computadores, rede elétrica e lógica, acesso à internet em banda larga, além de pessoas responsáveis pela gestão e atendimento ao público”.
Segundo a gerente do CRC, Vera Lúcia Prímola, o local recebe, atualmente, cerca de mil doações por mês, advindas, principalmente, de órgãos públicos, que modernizaram sua infraestrutura computacional, e de empresas. “Mas qualquer pessoa ou empresa de todo porte pode realizar doações. Não há limite mínimo do que pode ser doado”.
Há um ano instalado no bairro Ipiranga, o CRC BH Digital conta com uma equipe de 30 pessoas. Durante esse período, foram recondicionados 3.668 computadores, que beneficiaram 103 entidades em Belo Horizonte e 39 municípios em Minas Gerais, Bahia, Ceará, Alagoas, Espírito Santo, além do Distrito Federal. Atualmente, são oferecidos os cursos Formação Profissional Mundo do Trabalho, Capacitação de Monitores de Telecentro, Capacitação de Agente de Informática Escolar, Cursos Básicos de Informatica, Montagem e Manutenção de Micro.
Quem quiser doar algum equipamento, deve levá-lo ao Centro de Recondicionamento de Computadores. Mantido pela Empresa de Informática e Informação do Município de Belo Horizonte (Prodabel), pela Prefeitura de Belo Horizonte e pela Associação Municipal de Assistência Social (Amas), o CRC BH Digial fica na rua José Clemente Pereira, 440, bairro Ipiranga. Os telefones são (31) 3277-6259/6064 e o e-mail crc.bhdigital@pbh.gov.br. Mais informações no site www.computadoresparainclusao.gov.br.
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